29 de novembro de 2008

John Locke em quadrinhos

O pessoal da Faculdade de Filosofia da UFMG transpôs a teoria da tábula rasa, do inglês John Locke para as histórias em quadrinhos. Locke, acreditava que todas as pessoas nasciam com a mente "vazia" e iam adquirindo conhecimento através do contato com o mundo.
O trabalho dos estudantes ficou bastante didático, apesar de tratar apenas uma parte da teoria do empirista.
Aqui está o quadrinhos em pdf ou power point (o autor está como desconhecido).

23 de novembro de 2008

Quem tem medo do ignorante?

A querela do diploma para jornalistas: a Federação Nacional dos Jornalistas e seus fiéis discípulos batem o pé de um lado, o Supremo Tribunal Federal fica oscilando entre uma coisa e outra, em intermináveis julgamentos que não nos deixam saber se o papelzinho vale ou não vale.
Enquanto isso, uma leva de jornalistas afirma que os sem diploma não possuem ética e nem competência para atuar na nobre função de formadores de opinião, mas oras, se eles não tem competência, por que ter medo? Se você, jornalista ou estudante de jornalismo, sabe (ou pensa) que seu diploma é de fundamental importância para o exercício da profissão, deveria se garantir no mercado de trabalho e entender que, muito sensatamente, as grandes empresas (e as pequenas também, porque elas não são burras nem nada) vão reconhecer o seu mérito e não vão contratar os desqualificados, sem ética e sem diploma.
Mas não é isso que acontece, não é? A Folha de São Paulo, um dos maiores jornais do país, exige apenas curso superior e competência em seu processo seletivo. O que fazer? Bom, você, jornalista de canudinho na mão, deveria protestar e não ler mais esse jornaleco que se permite contratar “qualquer um”.
Agora vamos para outro questionamento. Você conhece um dos maiores jornalistas deste país de papéis? O nome dele é Cláudio Abramo e, para surpresa de todos, ele não tinha diploma. Uma parte de seu currículo diz o seguinte:
“Não é membro de academias ou clubes. Fez o curso primário e os cursos de madureza do ginásio e do colégio, estes depois de maduro. Não tem curso universitário. Fala corretamente cinco línguas. Escreve em português e inglês, corretamente. Nunca publicou livros. Nunca fez poesias. Nunca escreveu ficção, nem a jornalística.”
Alguns podem espernear e dizer que se não se exige diploma para jornalismo, então não se deve exigir para nada! Claro, quase não há sutilezas entre uma neurocirurgia e um texto bem feito. Mas vale lembrar que, para alguns cargos, principalmente no serviço público, não há exigência de diploma específico, por exemplo: não é exigido de uma analista ambiental o diploma de uma área afim, cargos administrativos não exigem diploma de administração, entre outros (e eu nunca vi ninguém de engenharia ambiental ou de administração fazendo protestos pela obrigatoriedade do diploma).
A questão do diploma jornalístico é muitas vezes vista sob a ótica do “os sem diploma não tem ética”, mas afinal de contas, quem diz isso sabe o que é ética?
Ética: derivado do grego ethos, a palavra significa “modo de ser, caráter”, coisa que se aprende na universidade, óbvio trivial.

Débora Antunes (eu mesmo!) é estudante de jornalismo e acredita que ética se adquire com a vida, pois ela não está colada embaixo das carteiras universitárias, como chiclete. Acredita que a competência deve ser valorizada antes do diploma e não entende por que os jornalistas, que consideram o diploma fundamental, têm medo dos ignorantes.
E para terminar fica um provérbio:
“Ninguém se considera tão ignorante como o sábio, nem tão sabedor como o ignorante.”
E se a carapuça serviu, entre na fila e pegue a senha, porque o produto está esgotado.

“Débora, esse blog não era sobre filosofia?”
Sim, sim, mas de que vale ler e estudar se você não vai utilizar seus conhecimentos para discutir questões que afligem o que está acontecendo ao seu redor?

18 de novembro de 2008

Humor com um quê de filosofia

As pérolas de Millor Fernandes são o tipo de coisa que te fazem rir enquanto deviam te fazer chorar, mas o homem é assim. O brasileiro então, nem se fala. Rir da desgraça alheia e da sua própria é uma das maneiras mais "saudáveis" de levar a vida.
O mundo está (ou esteve) cheio de tipos prontos para tirar uma anedota da ponta língua. Das terras de lá, deixo dois nomes que pouca gente conhece, o sarcástico W. C. Fields e o cineasta Grouxo Max.

“Sou livre de qualquer preconceito. Odeio todo mundo, indistintamente.” – W. C. Fields

“A filosofia é a ciência que nos ensina a ser infelizes da maneira mais inteligente” – Groucho Max
Mas vamos ficar um pouco mais no passado do solo tupiniquim. Recentemente votei em um pequeno artigo no Dihitt, do Eduardo Buys, onde havia algumas citações do Barão de Itararé. Nunca tinha escutado o nome, muito menos lidos suas brilhantes máximas, que podem ser usadas como lição de vida.
Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, que pela graça de um deus qualquer resolveu adotar o pseudônimo de Barão de Itararé, nasceu na cidade gaucha de Rio Grande em 1895 e só passou a adotar o título-pseudônimo em 1930, quando se auto proclama Duque de Itararé, o herói da batalha que não houve (pra quem não lembra, em 1930 tivemos o golpe que colocou Getúlio Vargas no poder), mais tarde, resolveu diminuir seu próprio poder e satisfez-se com a alcunha de Barão de Itararé.Durante sua vida, Aporelly atuou como jornalista, conheceu gente importante, como Graciliano Ramos, Mário Rodrigues (pai de Nelson Rodrigues), entre outros. Morreu em 1975 deixando como herança uma obra farta em risos e em conhecimento, tudo dependendo de quem lê.
O Barão criticou a televisão, dizendo “A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.”, e a sociedade de um modo geral com as máximas:

“O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.”
“A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.”

Embora já tenham passados alguns anos, suas Máximas e Mínimas ainda são validas para a sociedade atual e podem dar o que pensar a quem não pensa só em rir.
A sombra do branco é igual a do preto.”

Embora já tenham passados alguns anos, suas Máximas e Mínimas ainda são validas para a sociedade atual e podem dar o que pensar a quem não pensa só em rir.

Escute a máxima Conselhos Médicos, do Barão de Itararé


16 de novembro de 2008

Entenda o ateísmo - Parte II

“Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o seu.”- Stephen Henry Roberts
Qual a diferença entre se ter um deus e não se ter?
Nada, senão a fé, demonstra a existência concreta de um deus, ou de muitos deuses. Algumas pessoas vêem deus apenas como um pilar para quando estão com problemas e em seguida agradecem, outras agradecem independente do que aconteça pois pensam que todos os desígnios de deus são justos.
Para o ateu a única escora para seus problemas é ele mesmo e as coisas que acontecem em suas vidas, justas ou não, são conseqüências de seus próprios atos ou da influência de outros. De toda forma, a culpa ou a glória é de uma pessoa de carne e osso.

"Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?" - Epicuro

Militância ateísta
Ultimamente os ateus têm divulgado mais seus ideais. Recentemente, na Inglaterra, um grupo ateu contratou um serviço de publicidade para fazer campanhas ateístas nos ônibus de Londres. No entanto, determinados grupos tem adotado uma postura fanática, mas isto não se deve a nenhum preceito ateu, é uma característica própria de cada um.
No entanto, a militância ateísta, desde que se mantenha o respeito, é necessária, principalmente em um país como o Brasil, onde o Estado mistura-se aos valores religiosos gerando normas baseadas nesses preceitos.
O tão falado Estado laico, não passa de escrita em papel, assim, é comum encontrarmos capelas cristãs dentro de instituições públicas (o que até demonstra certo desrespeito com outras religiões) e símbolos religiosos onde não deveria existir nada além do Estado.
Claro que a simples presença destes símbolos não interfere em nada na vida de um ateu, o problema é, como já foi dito em cima, a influência da religião do governo e os símbolos são uma conseqüência desta situação.

Moralidade e Ateísmo (Podcast)
Agradecimentos ao professor Ernesto von Ruckert pela longa entrevista (espero que tenha dito o nome dele corretamente) que permeou está postagem e também a anterior.

Afirmações e perguntas que você não precisa fazer para um ateu
Todos os ateus que conheço só se tornaram ateus porque se decepcionaram com Deus.
- Você conhece pessoas ressentidas, os outros ateus do mundo não têm culpa se você não sabe escolher as amizades.

Você vai para o inferno.
- Você também vai, não se preocupe, ainda nos encontramos lá.

Prove que Deus não existe?
- Prove um copo de arsênio e peça a Deus para sobreviver, se você viver ele existe, do contrário, ele não existe.

Você cultua o mau! ?
- Sim, tenho uma estátua do bicho-papão em tamanho real e faço reverência a ela todos os dias.

*Sei que as respostas são um tanto estúpidas, mas determinadas perguntas também o são.

Acredito que as pessoas têm de ser felizes com aquilo em que acreditam. Não me preocupo em tentar fazer com que alguém siga o que eu penso. Não me importa se alguém é religioso ou não, desde que não me venha impor seus preceitos ou emitir julgamentos baseadas apenas em preconceitos. A fé e a ausência de fé poderiam coexistir no mundo, o problema é o poder político que as religiões tomam para si.

10 de novembro de 2008

Entenda o ateísmo - Parte I

Antes, os comunistas eram os comedores de criançinhas, agora, o cargo passou para os ateus, que, na maior contradição possível, ainda são acusados de serem adoradores do diabo, algo que eles nem se quer acreditam que existe.
A palavra ateísmo significa a ausência de crença em qualquer entidade divina, podendo ser classificada em duas categorias, o ateísmo implícito e o ateísmo explícito, sendo que cada uma dessas categorias se dividem em outras duas vertentes.
Dentro do ateísmo implícito, onde não há rejeição consciente de deus, tem-se:
  • Ateísmo puro: quando não se tem nenhum contato com a idéia de um deus, ou seja, ou primeiro homo sapiens era um ateu puro, dado que a crença em deus só surgiu quando este tentou arrumar explicações para os fenômenos naturais que o rodeavam.
  • Ateísmo prático: são aqueles que tendo contato com definições de deus optam por se manter neutros, também são conhecidos como agnósticos. Lembrando que agnóstico não é aquele que crê em deus e não possui nenhuma religião, estes são os teístas. Agnósticos são aqueles que simplesmente entendem que não é possível obter resposta a respeito de deus. Assim, não se pode comprovar sua existência e nem sua inexistência, por isso, optam por ficar em cima do muro.
Já o ateísmo explícito, que rejeita a idéia de deus, abrange as seguintes categorias:
  • Ateísmo cético: o ateu cético não crê em deus, pois não há nenhuma evidência que o prove. Ele esta aberto a experiências, desde que baseadas em métodos rigorosos, que possam comprovar sua existência. Enquanto isto não existir o ateu cético adota a postura da descrença.
“Não acredito em deus porque não tenho motivos para fazê-lo; caso tivesse algum motivo, acreditaria; mas não encontrei nenhum. Ante a ausência de evidências, ser ateu não passa de uma simples questão de honestidade intelectual.” – André Díspore Cancian sobre o ateísmo cético.
  • Ateísmo crítico: considera totalmente impossível a existência de deus. Considero esta postura um tanto radical, pois não abre espaço para discussões e acaba tornando-se tão dogmática quanto uma postura religiosa.
De um modo geral, todos os ateus têm apenas uma característica em comum, a não crença em deus. Isto não implica em na aquisição de nenhum valor ou dogma a ser seguido. A definição do ser ateu não serve como parâmetro para que se estabeleça a personalidade de ninguém.

4 de novembro de 2008

Tédio! O que é isso?

Quantas vezes você já parou para reclamar do quanto está entediado? Mas já pensou no que exatamente isto significa? As discussões filosóficas a respeito do tédio existem desde a antiguidade grega, quando o termo acedia servia para designar algo como o nosso já conhecido tédio.
Mas, segundo o norueguês Lars Svendsen, o tédio é mais um dos frutos da pós-modernidade. Isto ocorre porque atualmente as pessoas são bombardeadas com significados por todos os lados, com isto elas não são capazes de criar seus próprios significados e sentem-se vazias ou entediadas. Ou seja, o tédio é um problema do muito que não é nada, muita informação e pouco significado pessoal.
Diferentemente da tristeza, o tédio não possui um objeto fixo, sua causa não remonta a coisa alguma. Nós ficamos tristes por algum motivo, mas não temos um motivo para justificar nosso tédio.
Em Filosofia do Tédio, Svendsen argumenta que o causador disso são as heranças deixadas pelo Romantismo Alemão e sua busca incessante pelo significado pessoal. Assim, a ausência deste significado deixa um amplo espaço aberto, preenchido apenas pelo vazio do niilismo.
O tédio pode ser classificado, de acordo com Doehlemann (juro que procurei algum link que não fosse em alemão, mas na falta deles, fica o site oficial), em três tipos:
  • Tédio situacional: quando acontece em decorrência de algo;
  • Tédio da saciedade: devido à excessiva repetição de alguma coisa;
  • Tédio existencial: o reino do nada, gerado pelo nada.
Dentre estas três formas, o tédio existencial é o mais cruel, pois cria uma relação de causa e conseqüência bastante confusa. Durante sua presença, o mundo torna-se sem sentido, nada desperta interesse. Mas, aí vem a confusão, é o mundo que se torna sem sentido devido ao tédio ou o tédio que deixa o mundo desprovido de sentido e interesse?
Heidegger lançou a seguinte questão: “O que entendia?” e logo a resposta “É o entediante”, apesar da evidência da fórmula, a tautologia implícita vai muito além da simples obviedade. É o estar entediado que deixa tudo entediante. Um livro, que poderia despertar o seu interesse em uma situação normal, não passa de chatice quando você está entediado. Desta forma, o tédio é que torna tudo entediante, não as coisas em si, mas sim o modo como você olha para elas através das lentes do tédio.
Tornando o mundo entediante, o conceito de tédio serve para justificar quase tudo que ocorre na humanidade, pois, supostamente, os homens vão atrás de algo para satisfazer sua ânsia por novidade, algo que os tire da rotina. Mas, da mesma forma, é também o tédio quem põe fim as coisas, por exemplo, um conflito demorado pode torna-se entediante, o mesmo acontece com uma história de amor ou qualquer outro evento humano.
“A maioria das pessoas faz coisas por puro tédio, algumas se apaixonam por tédio, outras são virtuosas, outras ainda dissolutas” / “O que as pessoas não inventam por tédio! Elas estudam por tédio, jogam por tédio e finalmente morrem de tédio”Georg Buchner.
Para curar-nos do tédio pós-moderno (eu odeio essa palavra) inventamos os placebos sociais, pequenas distrações que nos livram momentaneamente da ausência de sentido. Um desses placebos é o consumismo (essa eu adoro), que nos coloca em contato com novidades e passatempos diferentes a todo instante. Quanto tempo você não ficou fuçando naquele novo aparelho até ele se tornar entediante e você precisar de outro? Ou quantas horas passaram enquanto você fazia compras?
Por falar nisso, a hora é a maior demonstrativa do tédio, elas simplesmente não passam, os ponteiros do relógio parecem parados enquanto se está entediado. Mas isso gera um estranho contraditório, quando você pensa hoje em longos períodos de tédio do passado, no qual você não fez nada de nada, parece que eles não existiram, embora tenham passado devagar enquanto você os vivia. Já dos tempos em que se manteve ocupado com alguma atividade é capaz de lembrar com mais clareza, como se eles tivessem sido mais longos, no entanto, durante o tempo em que os viveu, passaram bem rápido. Deu pra entender?
Lars Svendsen acaba Filosofia do Tédio com uma conclusão nada animadora: o tédio não tem solução, você pode apenas amadurecer e conseguir levá-lo sem frustrações infantis.
“O que não resolve coisa alguma, é claro, mas muda a natureza do problema”.
Um dos mais retratos poéticos do tédio está na obra de Bernardo Soares (heterônimo pouco conhecido de Fernando Pessoa), O livro do desassossego. Cada fragmento parece expressar um tédio sem fim, um vazio interminável:

“Tudo me cansa, mesmo o que não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.”
“O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções."
Se este texto te deixou em um tédio situacional, o Blogosofias te ajuda! Você pode visitar o site I’m bored, preparado exclusivamente para aqueles dias em que você não encontra nada para fazer na frente do computador e quer passear de um site para outro. Se não gostou dessa, que tal experimentar esse joguinho? Parece fácil, mas garanto que você vai se frustrar logo, logo.
Nada disso te agrada? Você prefere ler alguma coisa? Então dá uma passada no Boteco Sujo, o jornalista Fausto Salvadori garante umas boas risadas com suas entrevistas, aconselho principalmente a da atriz Leila Lopes. Humor você também pode encontrar no blog do Rafael Galvão, a sessão As alegrias que o Google me dá é risada na certa.
Se você ainda não gostou de nada disso, que tal jogar Tibia? Um RPG online para nerds nostálgicos.
Agora, se o seu problema é o tédio existencial, só lamento e desejo boa sorte nos próximos dias.

28 de outubro de 2008

#97 - O homem que reergueu a Rússia

Quando o exército vermelho saiu de cena, sobrou um lamaçal onde política e economia se encontravam misturadas e em uma situação nada agradável. A antiga União Soviética deixou de herança para a Rússia um mercado que não conseguia se auto-abastecer e que também não podia contar com o apoio de outros países. Para resolver está situação Bóris Yeltsin escolheu um homem para ficar ao seu lado, em uma missão que muitos teriam recusado: reestruturar, ou até mesmos recriar, a economia russa.
Este homem é Yegor Gaidar, nonagésimo sétimo na lista da Prospect, ele assumiu o posto de Primeiro Ministro durante o período de transição da União Soviética para a Rússia que conhecemos hoje. Gaidar cresceu sob a influência de seu avô, um importante escritor russo. Desde criança era questionado na escola “como você pode escrever tão mal se seu avô escrevia tão bem”, cansado dessas comparações, o jovem Yegor decidiu dedicar-se ao estudo, desejando tornar-se um dos melhores alunos da escola. Logo teve uma decepção, pois com a eclosão da II Guerra Mundial, os judeus passaram a freqüentar escolas russas e se saíam bem melhor do que Gaidar.
Irritado com o fato, ele desejou que todos os judeus tivessem um fim cruel, mas logo se arrependeu da afirmação ao perceber o que ocorria com os judeus na Alemanha, sentindo-se até mesmo culpado por ter desejado mal àquele povo.
Mas a carreira de Gaidar como futuro economista ainda estava por se desenvolver. Isto ocorreu quando foi morar com seus pais em Cuba e teve sua primeira noção de mercado, segundo ele, em Cuba era muito difícil encontrar frutas, mas caminhando um pouco era possível encontrar fazendas com vasta produção de laranja e foi isso que fez com que ele desenvolvesse seus primeiros conceitos de mercado.
Sua última decisão quanto ao estudo de economia foi a influência de seu pai, que era militar, o menino queria seguir os passos do pai, mas o pai queria que o filho se dedicasse a economia. Para a sorte da futura Rússia, a vontade do pai venceu e Yegor Gaidar passou a estudar Economia na Universidade do Estado de Moscou.
Aprender economia na União Soviética era tarefa difícil, o ensino era tendencioso e só havia acesso aos livros comunistas, toda a disciplina era voltada para o marxismo ortodoxo, mas, apesar disso, Gaidar afirma que conseguia furar o bloqueio e pegar livros de outros autores, dentre eles, Adam Smith, que foi a principal influência do economista.
Apesar da forte influência do liberalismo de Smith, Gaidar filiou-se ao comunismo até 1991, quando saiu do Partido Comunista para apoiar o governo de Bóris Yeltsin. Assim, assume o posto de Primeiro Ministro em 17 de junho de 1992. Deste ano até 1994 Gaidar assumiu vários cargos políticos na Rússia, no entanto, o fato mais lembrado de sua carreira foi o Tratamento de Choque que impôs à economia russa durante o período de transição do comunismo para o capitalismo.
Este plano econômico teve como primeira medida o fim da regulação dos preços, o que resultou em um aumento dos mesmos, em seguida houve a oficialização de uma Economia de Mercado para a Rússia, o que impunha a ruptura com os vestígios do sistema socialista ainda existente no país. Gaidar também cortou o subsídio do governo às indústrias e aos militares, sustentando-se no liberalismo econômico.
O Tratamento de Choque imposto por Gaidar foi necessário para que a Rússia pudesse finalmente separar o governo da economia e ingressar no mercado capitalista, mas ainda assim suas medidas não foram totalmente aceitas pela população, por conta disto e de outros programas do governo de Yeltsin, este governo (e seus aliados) conquistou enorme inimizade na Rússia.
Gaidar responsabilizou esses inimigos pelo envenenamento que sofreu em 2006, quando ia proferir uma palestra na Irlanda e precisou ser hospitalizado. O economista afirma que começou a passar mal após ingerir o café da manhã e, algum tempo depois, caiu inconsciente. Gaidar se recuperou do possível atentado e atualmente divide seu tempo entre a política e a vida acadêmica.
Gaidar escreveu alguns livros sobre a economia russa e garantiu, em entrevista dada ao UCLA International Institute , que o país está melhor do que se pensa, depois de todas as dificuldades para se romper os entraves deixados pelo socialismo.